 guerra, e
nem uma palavra sobre isso lhe fora ventilada... exceto por
Samwell Tarly, que lera a carta para Meistre Aemon e
sussurrara o conteúdo a Jon naquela noite, em segredo,
enquanto repetia que não devia fazê-lo, Não havia dúvida de
que pensavam que a guerra do irmão não lhe dizia respeito.
Perturbava-o mais do que conseguia exprimir. Robb
marchava, e ele, não. Não importava quantas vezes Jon
dissesse a si próprio que seu lugar agora era ali, com seus
novos irmãos na Muralha, sentia-se um covarde do mesmo
jeito.
"Grão", gritava o corvo. "Grão, grão".
- Ah, cale-se - disse-lhe o Velho Urso. - Snow, daqui a quanto
tempo, segundo Meistre Aemon, terá essa mão em boas
condições?
- Em breve - Jon respondeu.
- Ótimo - sobre a mesa, entre os dois, Lorde Mormont
depositou uma grande espada numa bainha de metal negro
ligado com prata. - Toma. Neste caso, está pronto para isto.
O corvo desceu e aterrissou sobre a mesa, pavoneando-se na
direção da espada, com a cabeça inclinada de um modo
curioso. Jon hesitou. Não fazia nem uma vaga ideia do que
aquilo significava.
- Senhor?
- O fogo derreteu a prata do botão e queimou a guarda e o
punho. Bem, que se podia esperar de couro seco e madeira
velha? Mas a lâmina... seria necessário um fogo cem vezes
mais quente que aquele para danificar a lâmina - Mormont
empurrou a bainha sobre as pranchas grossas de carvalho. -
Mandei fazer o resto de novo. Toma.
"Toma", repetiu o corvo num eco, arranjando as penas com o
bico. "Toma, toma."
Com movimentos inábeis Jon pegou a espada. Pegou-a com a
mão esquerda, pois a direita, envolta em ataduras, estava
ainda muito dolorida e desajeitada. Com cuidado, puxou-a da
bainha e ergueu-a até os olhos.
O botão da espada era um pedaço de pedra clara recheado de
chumbo para equilibrar a longa lâmina. Fora esculpida à
semelhança de uma cabeça de lobo rosnando, com lascas de
granada para os olhos. O punho era de couro virgem, suave e
negro, ainda sem manchas de suor ou sangue. A lâmina
propriamente dita era cerca de quinze centímetros mais longa
que aquelas a que Jon estava habituado, delgada de forma a
poder trespassar tão bem como cortar, com três caneluras
profundamente entalhadas no metal. Enquanto Gelo era uma
verdadeira espada longa de duas mãos, esta era uma espada
de mão e meia, por vezes denominada "espada bastarda". Mas
a espada do lobo, na verdade, parecia mais leve que as que
manejara antes. Quando Jon a virou de lado, conseguiu ver as
ondulações do aço escuro, onde o metal fora dobrado sobre si
próprio uma e outra vez.
- Isto é aço valiriano, senhor - disse, espantado. Seu pai o
deixara segurar Gelo muitas vezes; conhecia o aspecto e a
sensação.
- É - disse-lhe o Velho Urso. - Foi a espada de meu pai, e
antes, do pai dele. Os Mormont a usaram ao longo de cinco
séculos. Manejei-a nos meus tempos, e a passei a meu filho
quando vesti o negro.
Está me dando a espada do filho. Jon quase não conseguia
acreditar. A lâmina tinha um equilíbrio magnífico. As arestas
cintilavam levemente quando beijavam a luz.
- Seu filho...
- Meu filho trouxe desonra à Casa Mormont, mas pelo menos
teve a elegância de deixar a espada quando fugiu. Minha irmã
a devolveu à minha guarda, mas bastava que a visse para me
recordar da desgraça de Jorah, então a coloquei de lado e não
voltei a pensar nela até que a encontramos nas cinzas do meu
quarto. O botão original era uma cabeça de urso, em prata,
mas tão desgastada que seus traços estavam praticamente
indistinguíveis. Para você, pensei que um lobo branco seria
mais adequado. Um dos nossos construtores é um escultor
razoável.
Quando Jon tinha a idade de Bran, sonhara com a realização
de grandes feitos, como os rapazes sonhavam sempre. Os
detalhes de seus feitos mudavam em cada sonho, mas era
frequente imaginar que salvava a vida do pai. Depois, Lorde
Eddard declararia que Jon provara ser um verdadeiro Stark e
colocaria Gelo em suas mãos. Mesmo então soubera que
aquilo não passava de delírio de criança; nenhum bastardo
poderia jamais esperar manejar a espada do pai. Até a recor-
dação o envergonhava. Que tipo de homem roubava os
direitos de nascença do próprio irmão? Não tenho direito a
isto, pensou, tal como não tenho direito a Gelo. Contraiu
subitamente os dedos, sentindo uma palpitação de dor bem
fundo sob a pele.
- Senhor, honra-me, mas...
- Poupe-me os seus mas, rapaz - interrompeu Lorde Mormont.
- Não estaria aqui se não fosse você e aquele seu animal.
Lutou bravamente... e, mais importante, pensou depressa.
Fogol Sim, maldição. Já devíamos saber. Devíamos ter
lembrado, A Longa Noite já chegou antes. Ah, oito mil anos é
bastante tempo, com certeza... mas, se a Patrulha da Noite
não recorda, quem recordará?
"Quem recordara, concordou o corvo falador."Quem
recordará"
Na verdade, os deuses tinham atendido às preces de Jon
naquela noite; o fogo pegara nas roupas do morto e o
consumira como se a carne fosse cera e os ossos, madeira
velha e seca. Bastava a Jon fechar os olhos para ver a coisa
cambalear no aposento